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Reciclagem de Lixo
Recicladores Invisíveis
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27/07/2008

 

Por Juliana Velloso*

O cearense José Célio da Silva, de 32 anos, vive com a mulher e os quatro filhos em um barraco de madeirite em frente ao Setor Militar, em Brasília. O paulista José Roberto dos Santos, de 40 anos, vive com a mulher em uma casa construída em um lote, dado pelo governo, na cidade satélite de Ceilândia.

O que os dois têm em comum? Ambos são catadores de materiais recicláveis em Brasília, recicladores que passam despercebidos entre os habitantes da capital federal. Enquanto a maioria da população que mora onde eles trabalham saem de casa de carro, os Zes vão a pé, puxando as carroças de porta em porta, revirando lixo atrás de algum lucro.

Zé Célio estudou até a 5° série do ensino fundamental e veio há 12 anos para Brasília em busca de uma vida melhor. Diz que melhorou. Mas, desde que chegou, vive em um barraco de madeira. “Quando a subsolo derruba, eu vou lá e levanto de novo. No mesmo lugar”, descreve Zé. Os filhos não trabalham, apenas estudam. Zé Célio quer assegurar um futuro melhor para eles.

Zé Roberto, o segundo Zé, veio de Campinas há 10 anos atrás, também procurando uma vida melhor. Como o primeiro Zé, acabou na coleta de lixo. Enquanto conseguir comer, beber e juntar um dinheiro, diz que continua por aqui.

“Jamais pensei em estar aqui. Isto é uma conseqüência de escolhas que fiz. Aqui ninguém ajuda ninguém e quem ajuda mais são as pessoas que trabalham debaixo dos blocos(porteiros). Eu nunca comprei roupa. Estou há 10 anos aqui e nunca comprei roupa”, conta.

CelioAssim como a maioria de nós não pensa na hora de consumir, o mesmo acontece na hora de descartar. Quem pensa nos “Zés” que vivem da coleta de materiais recicláveis quando os descarta junto com os restos de alimentos do delicioso almoço de domingo? Com toda a certeza não é um pensamento recorrente.

“Os recicladores invisíveis” diariamente recolhem tudo que não mais utilizamos. Não sabem o que encontrarão, não sabem como será a receita após mais um dia de trabalho árduo, passando de casa em casa, de lata em lata de lixo, tentando recolher restos aceitáveis e que tenham algum valor.

Latas, garrafas, papéis. Lixos que viram renda. Que permitem mais um dia de comida na mesa e que são conseguidos com o trabalho de toda a família envolvida. Velhos, crianças. Não importa a idade. O lixo os espera.

Para sustentar a mulher e as crianças, Zé Célio trabalha de 7 da manhã até o fim do dia, com a ajuda de uma mula, que o acompanha nas andanças pelas ruas da cidade puxando a carroça. Seu veículo nem ao menos lhe pertence, é na verdade do irmão, que também é carrinheiro.

 Assim, Zé Célio consegue uma média de 600 reais por mês, que, segundo ele, permite oferecer o essencial para a família: comida e estudo.

“Eu saí de lá(Ceará) sem rumo. Melhor que lá nós vive. Aqui consigo dar estudo para os meus filhos. Eu não tenho estudo para arrumar um emprego, assim, fechado. É, minha vida é essa”, descreve.

A rotina de Zé Roberto é ainda mais extenuante. Carrega seu carrinho nas costas todos os dias das 5 da manhã até às 7 da noite e já sofre as conseqüências do árduo trabalho, com as dores que sente na coluna.

Com opinião sobre tudo, é o mais qualificado dos carrinheiros, na sua avaliação, o que se comprova após alguns minutos de bate-papo. Considera o sol, além do governo, o maior vilão de quem trabalha na rua e tem certeza que algum dia uma doença o acometerá advinda de sua atividade de lidar com lixo.

“O governo não vem perguntar o que estamos precisando. Não tem ONG, nada disso, para nos ajudar. Meu patrão(que compra os materiais recicláveis) há cinco anos atrás tinha cinco caminhões velhos. Agora, ele tem mais de 100 caminhões zerados. Lixo dá dinheiro”, narra com desolação.

Assim como o resto dos carrinheiros, ambos não possuem carteira assinada, direitos e nem tão pouco deveres.

Consciência na separação de resíduos

O fato desses recicladores, sem ao menos terem acesso à educação digna, possuírem maior consciência ambiental(sem ter consciência disso) do que os próprios produtores de lixo acaba sendo um contra-senso. Pessoas escolarizadas, empregadas em sua maioria, com acesso à informação e que não possuem a capacidade de, ao menos, separar o lixo que produzem.

É fato que a maioria das famílias brasileiras não incorporou ainda os conceitos da coleta seletiva, atividade que permite o reaproveitamento do lixo e a transformação do mesmo em fonte de renda para muitas famílias que não têm acesso a uma vida, na maioria das vezes, passível de ser considerada digna.

Segundo dados publicados nos Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2004 do IBGE, somente 2% do lixo produzido no país é coletado seletivamente. Apenas 6% das residências são atendidas por serviços de coleta seletiva, que existem em apenas 8,2% dos municípios brasileiros.

Um exemplo apresentado recentemente na imprensa citou um caso de mobilização da sociedade civil em prol de melhorias nessa área. Um bairro no Espírito Santo, através de sua associação de moradores, incorporou valor a diferentes tipos de resíduos que podem ser trocados por alimentos.

Ze RobertoNuma espécie de mercado da reciclagem, as pessoas levam os materiais recicláveis para um depósito dentro do bairro e os trocam pelos alimentos disponíveis.

Os alimentos são doados pela própria comunidade, que vendo o sucesso da idéia se compromete em diversas frentes: separando seus resíduos, conscientizando e doando alimentos. E os lixos coletados são destinados às empresas de reciclagem de forma organizada. Exemplo de iniciativa simples e de sucesso facilmente replicável.

Seria um extremo avanço para nossa sociedade se começássemos a pensar no ato de consumir e no ato de descartar. É um crime, diante da realidade vista diariamente em nossa rotina, consumir e descartar de forma irresponsável.

Se ao menos houvesse uma preocupação mínima na hora do descarte, separando-se os elementos secos dos molhados, restos de alimentos dos demais materiais, já ajudaria o trabalho de milhares de brasileiros que vivem à margem de nossa sociedade consumindo e vivendo do que não tem mais valor para muitos.

Pergunto ao Zé Roberto qual dos itens coletados lhe rende mais. Ele diz que no momento a garrafa pet está valendo mais. Mas isso muda. “Quando tem muita guerra, os metais ficam valendo ouro”, diz.

Infelizmente, os dois Zé não demonstram muita esperança de que as coisas melhorem. Querem apenas trabalhar sem ninguém para atrapalhar. Deixam claro que não vale a pena trabalhar para os outros, que as empresas querem pagar bem menos do que conseguem tirar ali por mês, às vezes mais de R$ 1000,00.

Se a sociedade civil também se mobilizasse em prol de pequenas mudanças locais, se vislumbraria um progresso desmedido no médio prazo.

Temos que aprender a lidar com nosso lixo de forma responsável, enxergando o valor monetário que ele pode ter ou, ao menos, refletindo sobre o destino dos resíduos que descartamos. Talvez assim os recicladores se tornassem mais visíveis.

Para os Zés, o simples fato de separar os materiais recicláveis dos restos de alimentos já seria de grande serventia para o trabalho diário. Porém não acreditam que isso venha a acontecer e, por isso, seguem rasgando os sacos que, todos os dias, nós damos os nós.

* Juliana Velloso é economista.

Fonte:Envolverde/Carbono Brasil

   
       
 
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