Virgílio Viana*
Durante muito tempo, a ênfase da agenda ambiental foi reduzir a degradação e proteger a natureza ameaçada pelo crescimento econômico.
Agora o desafio vai além disso: é entender o papel da sustentabilidade ambiental para o bem estar humano. Estamos diante de uma mudança de paradigmas para a agenda ambiental.
A sustentabilidade ambiental não deve ser vista como uma agenda isolada. Ao contrário: deve ser entendida como parte de uma agenda mais ampla de aumento da felicidade, erradicação da pobreza e crescimento econômico. Não são agendas antagônicas, mas, sim agendas complementares, que devem ser implementadas simultaneamente.
Durante muito tempo pensou-se que a erradicação da pobreza era uma prioridade que deveria impor à agenda ambiental uma posição de segundo plano.
Ainda é comum ouvir líderes dizerem que se preocupam mais com as pessoas do que com os animais, plantas e a conservação da natureza. Essa visão está ultrapassada. Estamos todos interconectados com a natureza e nossas vidas dependem disso.
A ciência, por meio do recém-publicado relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), mostra que o clima do mundo está mudando em função das atividades humanas. Pior: isto está acontecendo mais rapidamente do que o esperado.
Devemos nos preparar para a adaptação a catástrofes ambientais cada vez mais severas e frequentes. Uma das melhores estratégias para isso é investir na conservação e restauração de ecossistemas naturais.
Conservar e restaurar as florestas nas montanhas são os investimentos com melhor relação custo-benefício para proteger os moradores vulneráveis a enchentes e secas.
A população pobre, que vem melhorando de renda e qualidade de vida, é a mais vulnerável a eventos climáticos extremos. As habitações da população de baixa renda estão mais frequentemente localizadas em locais de riscoe têm construções mais precárias.
A economia familiar tem maior vulnerabilidade a catástrofes. Tudo isso coloca as conquistas sociais recentes em risco.
Investir na conservação da natureza é, portanto, algo diretamente relacionado com o bem estar humano.
Não apenas pensando nas populações mais pobres. Tudo aquilo que gostamos de fazer, beber ou comer depende da manutenção dos serviços ambientais: da qualidade do vinho até o lazer nas montanhas ou praias.
O conceito de serviços ambientais precisa ser cada vez melhor entendido e internalizado na formulação de políticas públicas, estratégias empresariais, movimentos sociais e nas decisões individuais dos consumidores.
Uma das soluções para aumentar a resiliência de nossas sociedades é assegurar que os ecossistemas naturais estejam saudáveis e capazes de assegurar os serviços ambientais para o bem estar humano.
Em outras palavras, dependemos da vitalidade dos oceanos, florestas e outros ecossistemas para manter a biodiversidade, que é a fonte dos serviços ambientais que nos permitem viver como seres humanos neste planeta.
Um dos principais avanços das negociações internacionais relacionadas com a Rio+20 foi o acordo global sobre uma agenda pós-2015. Este será o período subsequente aos compromissos relacionados com os Objetivos do Milênio, que terminam em 2015.
A agenda pós-2015 deverá integrar melhor a agenda ambiental com a busca de melhoria da qualidade de vida para os pobres e a manutenção das conquistas de bem estar para todos.
Se não houver a devida atenção para isso, todos os ganhos sociais estarão comprometidos e a economia cada dia mais vulnerável aos efeitos devastadores das mudanças climáticas. É uma agenda para todos: pobres e ricos.
A boa notícia é que existem conhecimento e recursos suficientes para promover a necessária mudança na trajetória de nossas economias, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento.Entretanto, ainda falta clareza sobre a urgência dessa mudança, tanto na população em geral quanto na visão da maior parte de nossas lideranças; tanto no setor público quanto no mundo empresarial e na sociedade civil.
É hora de uma nova tomada de consciência e ação.
* Virgílio Viana é superintendente geral da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e coordenador da rede SDSN-Amazônia.
Artigo publicado no Jornal Diário do Amazonas
Fonte: Envolvimento Sustentável / Mercado Ético